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Secretária de SMADS no jornal Valor Econômico

Luciana Temer cultiva perfil de gestora e ascende no PMDB paulista


A reunião já ia em 45 minutos e Luciana Temer apenas arqueava sobrancelhas a cada repetição sutil da sugestão, vinda de funcionários de uma prestadora de serviços, de que buscasse uma solução “política” para o problema. No caso, o término de um contrato de trabalho para abordagem de moradores de rua, com duração de dois anos, a vencer este mês. “Gente, eu já estiquei esse contrato por mais 60 dias e nem poderia fazer isso. Estou colocando meu pescoço no Tribunal de Contas”, argumentava a nova secretária municipal de Assistência Social de São Paulo, enquanto procurava explicar que aquela e outras pendências deveriam ter sido resolvidas pela gestão anterior.
Sem ter esboçado palavra até aquele momento, um dos presentes resolveu se manifestar. “Eu só saio daqui com a garantia dos nossos empregos. Senão, vou bater na porta do [prefeito]
Fernando Haddad agora e vamos nos movimentar politicamente para juntar 5 mil pessoas em frente à prefeitura”, ameaçou. A postura até então serena de Luciana acabou por ali. Dedo em riste, devolveu: “Olha aqui, eu não trabalho bem com ameaça! Eu sou professora, advogada, não sou política, sou filha de político, todo mundo sabe disso. Eu tenho uma história, portanto me respeite ou saia daqui agora e vá lá falar com o prefeito, pode ir”.

Cinco minutos depois, Luciana de Toledo Temer Castelo Branco, 43 anos e como o nome denuncia, filha do vice-presidente da República Michel Temer (PMDB) – o último sobrenome é do ex-marido -, entrava no carro oficial rumo a um encontro com o maestro João Carlos Martins na Fundação Bachiana, cuja sede pertence à secretaria. “Você viu aquilo? Não me aguentei, baixou o meu lado delegada de polícia”, disse Luciana à reportagem do Valor, lembrando os quatro anos em que comandou a Delegacia de Defesa da Mulher da cidade de Osasco, região metropolitana da capital. Ela se diz ciente de que muito do que ouve e da maneira como é cobrada se dá por ser filha de um dos maiores articuladores da política nacional, cuja dissociação é impossível de fazer. “Quando insisti lá que a minha solução não é política, é porque eu não sou política, sou técnica. Sou gestora”, alega.

Doutora em Direito Constitucional pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), instituição na qual dá aulas há 20 anos, Luciana credita ao deputado federal Gabriel Chalita (PMDB) sua indicação para o cargo. Sua missão prioritária será cadastrar as aproximadamente 225 mil famílias carentes da cidade ainda não alcançadas pelo Bolsa Família, programa do governo federal. Quer também reestruturar os albergues municipais e fazer um pente fino nos contratos firmados entre a prefeitura e 374 entidades conveniadas, “uma verdadeira caixa preta”, diz.

Ela garante que o pai foi contra sua ida para o secretariado paulistano. Chega a relatar uma conversa, do fim do ano passado, em que Temer teria lhe dito: “Lu, todo mundo vai dizer que você ganhou o cargo porque é minha filha. Vão destruir você na imprensa”. Ao que ela teria questionado desaforadamente: “Vou ter que esperar você morrer então?”.

Luciana argumenta que seu currículo a respalda para estar no posto. “Quando o Haddad foi fazer o governo de coalizão, ele entregou aos partidos aliados algumas secretarias. Ele também questionou o Chalita se a minha indicação era por ser filha do Temer. Quando viu que meu currículo era maior do que o de vários outros secretários, disse ‘ah, então tudo bem’”, conta.

Seu envolvimento com a política está mais vinculado a Chalita, amigo de longa data e que foi seu orientador no doutorado, do que ao pai. “Eu nunca fiz campanha para o meu pai”, diz. Sua filiação ao PMDB de Temer data apenas do ano passado, quando participou da elaboração do plano de governo de Chalita, quarto colocado na disputa pela Prefeitura de São Paulo.

À época filiado ao PSDB, Chalita fez de Luciana sua secretária-adjunta estadual de Juventude, Esporte e Lazer, em 2001. Ela assumiria o comando da secretaria seis meses depois, quando Chalita virou secretário de Educação. O governador de então era o mesmo de agora, o tucano Geraldo Alckmin.

Luciana reconhece que, à exceção do Parque da Juventude, espaço cultural e esportivo construído em área que abrigava um antigo complexo penitenciário, conseguiu fazer pouca coisa em sua passagem pelo cargo. O grande nó era a Fundação Estadual do Bem Estar do Menor (Febem), hoje Fundação Casa. “Havia uma divergência com a presidente da Febem em relação à condução dos menores. A Febem foi fechada para entidades e associações de mães, das quais fui defensora. Houve um certo embate e eu não tive força política”, relata. A presidente da Febem era Maria Luiza Granado, muito ligada a Saulo de Castro, então secretário de Segurança Pública – ele permanece no alto escalão do governo estadual, hoje no comando da secretaria de Transportes.

Em 2003, Alckmin iniciou novo mandato e Luciana, tida como “cota do PMDB” mesmo não sendo filiada, não foi mantida no cargo. Chalita, no entanto, permaneceu na Educação. Tão logo a Febem passou a ser vinculada à sua secretaria, ele demitiu Maria Luiza. Hoje a Fundação Casa é subordinada à secretaria de Justiça do Estado.

Por sugestão de Ana Estela Haddad, esposa do prefeito, Luciana Temer começara a agenda naquela terça-feira visitando o padre Carlos Contiéri, diretor do Páteo do Colégio, obra apostólica situada na mais antiga construção da cidade. Com ele, compartilhou a opinião de que a chamada Operação Cracolândia – oficialmente, operação Sufoco -, deflagrada nos primeiros dias de 2012 com o intuito de desarticular o tráfico de drogas na região central da cidade, “foi um grande erro” e apenas espalhou os viciados pela cidade. “É um caso de saúde pública, não de polícia”, afirma.

Não é a única opinião que a coloca à esquerda de seu partido: Luciana afirma ter recebido de sua antecessora, Alda Marco Antonio (PSD), uma secretaria bem estruturada, mas carente de soluções criativas. “Farei uma gestão menos conservadora”, garante. Alda, que era também vice-prefeita, notabilizou-se por propor que o poder municipal criasse meios de devolver às suas cidades de origem os viciados em crack que moram nas ruas de São Paulo. “Isso é inconstitucional. Os brasileiros têm de ser tratados igualmente em todo o território nacional. Nem me passa pela cabeça uma ação dessas”, diz.

O atual modelo de tratamento assistencial a moradores de rua também alvo de críticas da nova secretária. “O que temos hoje é insuficiente para atender a diversidade da situação de rua. Só há um abrigo para famílias na cidade. Não há albegues para mães com filhos, principalmente depois que a criança completa 12 anos”, alerta. “Por isso muitos preferem permanecer na rua, para ficar com seu companheiro, seu filho, até com seu cachorro. Eu também preferiria dormir na rua a ser separada dos meus filhos”. A solução, acredita, está na criação de hotéis sociais temporários, cuja porta de saída seria a participação em projetos de habitação popular.

Politicamente, a mais velha dos cinco filhos de Temer se considera uma “liberal” e, ao contrário de Chalita, muito ligado à Igreja Católica, diz não ter religião específica. “Brinco dizendo que sempre trabalhei para pobre. Sempre tive um olhar muito preocupado com as questões sociais e voltado para os oprimidos”. Apesar do discurso, jura enfaticamente que não irá concorrer a qualquer cargo eletivo no futuro. “Totalmente fora de cogitação. Meu perfil é acadêmico”. Não é o que dizem dirigentes da sigla, que apostam que Luciana será um quadro talhado para as urnas em quatro anos.

Ela evita o quanto pode falar de sua vida privada. Numa passagem algo cômica, o maestro João Carlos Martins pergunta seu estado civil. “Ah, maestro, isso é tão complicado…”, foi sua resposta.
Mãe de dois filhos entrando na adolescência, cujos nomes ela leva em uma tatuagem na nuca – tem outra com os símbolos de paz e amor no pulso direito – Luciana só viria a falar sobre a madrasta, Marcela Temer, ao ser lembrada que seu primogênito Pedro é quase oito anos mais velho que Michelzinho, de quatro anos, filho mais novo de seu pai, de 72 anos. “Sim, mas eu sou muito mais velha do que a mulher do meu pai”, disse, esticando as vogais da palavra “muito” de maneira teatral para lembrar os 13 anos de diferença entre elas. Logo depois, apaziguou, procurando encerrar a questão. “Como te disse, sou uma liberal. Acho que todo mundo tem o direito de ser feliz, inclusive o meu pai”.

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2 comentários:

  1. Anônimo3/5/14

    Eu preciso inscrever a minha instituição no SMADS. Qual o procedimento?

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    1. Você deve procurar o COMAS - Conselho Municipal da Assistência Social de São Paulo. Fone: 3001 2546.

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Muito obrigado pelo seu comentario